Digitou no celular:
"Você partiu meu coração".
Depois ponderou alguns segundos se deveria ou não enviar. Por um lado é bom deixar o outro saber que pisou em cima dos seus sonhos, que os destruiu. Por outro é tornar-se extremamente vulnerável à retaliação. Seria muito fácil que ele não respondesse ou fingisse não se importar. Talvez sequer se importasse mesmo. Cretinos existem em qualquer lugar e João Victor definitivamente era um.
Digitou outra mensagem:
"Me encontre na boate". Dessa vez o envio foi certo.
A Imperium havia inaugurado havia apenas um mês e já era o ponto de encontro de todos os amigos. Cacau e Marcelo disseram que a encontrariam lá. Diferentemente da sua personalidade, Laura se arrumou como nunca antes havia feito, vestiu aquele vestido curtíssimo que guardava para casamentos - ou velórios, sabe-se lá - maquiou-se, deixou as botas Timberlands de lado e calçou um salto que já criava mofo dentro do armário. Soltou os cabelos. Olhou-se no espelho. Estava fabulosa - ou assim pensava. A não ser pelas sobrancelhas... recusava-se a passar por aquela agonia desnecessária.
"Hoje eu vou fazer você se arrepender de ter me chutado, desgraçado!".
Nem sequer sabia se ele iria e pouco importava. Não significava que seu coração obviamente destroçado iria se curar, mas ela iria simplesmente encher a cara sem gastar sequer um centavo e chegar em casa carregada debaixo dos braços dos amigos e só ia acordar no outro dia. Não ia doer, nem um pouco. E mesmo que a sensação de melhora fosse absolutamente momentânea, tanto fazia. Ela daria tudo para não sentir, por pelo menos algumas horas.
Na fachada externa da boate foram projetadas luzes azuis em um letreiro de letras garrafais onde se lia Imperium, com uma coroa amarela sobre o primeiro I. A fila para entrar estava gigantesca, mas ela chegou perto da porta para ver quem era o segurança. Se fosse o Bento passaria fácil. Se fosse outro... Bem, encontraria os amigos na fila também, e aí já seria meio caminho andado.
Por sorte era Bento. Um cara enorme, com um bíceps maior que a cabeça dela e, tanto quanto grande, gay. Talvez por isso fossem amigos.
"Meu chegado!"
"Laurinha!! Desentocou?"
"Vim conferir a boate hoje. Você sabe quem toca?"
"Flávia, Tatau e um MC que eu esqueci o nome, mas sei que não é daqui".
"Você viu o Marcelo e a Cacau?
"Estão lá dentro" - e abriu passagem para ela. Adorava aquele tipo de corrupção. Furar uma fila quilométrica e entrar na boate sem pagar era demais. Não que ela fosse importante para isso, mas ela simplesmente tinha os amigos certos.
A boate já estava cheia. Muita gente, fumaça de gelo seco e aquele flash - odiava aquela merda piscando. Avistou os amigos no bar bebericando Martinis. Gostavam de pedir por que viam em filmes e adoravam passar por gente de comédia romântica. Começou a caminhar até eles, mas inexplicavelmente, por alguma força misteriosa da física que Einstein ou Newton não conseguiram explicar, seus olhos cegados por aquele flash horroroso desviaram-se 30° a bombordo e ela viu o que menos queria ver: João Victor. E ele não estava sozinho. Estava abraçado com uma garota que obviamente era mais bonita que ela, com um sorriso mais bonito que o dela, com um corpo mais bonito que o dela.
Não soube como pode enxergar tanta qualidade estando quase cega pela fumaça, mas ela conseguiu.
Tropeçou nos próprios pés e cambaleou de maneira ridícula até onde estavam os amigos.
Cacau imediatamente chamou o barman e pediu outro Martini. Laura fez que não.
"Hoje eu quero é vodka!"
"Mas amiga, vodka te dá amnésia..."
"Exatamente!"
TO BE CONTINUED
domingo, 27 de julho de 2014
quinta-feira, 24 de julho de 2014
Um início promissor...
Para começar bem, falando de algo eu gosto, e principalmente para honrar a memória de todos os blogs que escrevi e abandonei...
Para começar com intensidade e densidade, abandonando enfim as coisas rasas.
Escrevi isso para o Adoro Cinema.
Vivemos num mundo triste. Como diria Bukowski, "um mundo solitário, de pessoas assustadas". Nesse mundo onde as coisas podem ser ditas e feitas rapidamente, onde pessoas muito distantes umas das outras podem se comunicar de maneira incrivelmente rápida, criamos o hábito de abandonar uns aos outros. E mais, algumas pessoas, especialistas em egoísmo e emocionalmente deficientes passaram a convencer os outros de que isso é uma coisa boa, a coisa certa a se fazer.
Quando eu era pequena minha mãe costumava dizer que não compraríamos algo novo se o antigo podia ser consertado. Isso parece muito coisa de "pobre", mas hoje eu entendo o que ela queria dizer: se uma coisa ainda pode funcionar, por que comprar uma nova e correr o risco de que não dure nem um terço do que a antiga? Por que, se o velho ainda funciona e muito bem?! Por que eu posso? Para mostrar que eu tenho esse poder?
O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças mostra uma situação que, se existisse hoje, bateria o recorde das cirurgias plásticas: a possibilidade de pagar um valor e ter uma pessoa completamente arrancada de sua mente. Mas arrancada até que ponto?
Logo na introdução do filme, Joel e Clem se encontram na estação de trem, Até ali, você pensa que eles nunca se viram. E é algo completamente eestranho, visto que eles se envolvem de uma maneira absurdamente intimista logo num primeiro contato. Ela se sente mais segura com ele do que tem estado durante muito tempo. E logo depois nos é mostrado que eles já se conheciam.
Sim, o filme se passa quase por completo na mente do Joel, mas também temos relances do que acontece com Clementine, a primeira a passar pelo processo de apagar a memória. E vemos como o processo, que é descrito como um "dano cerebral", afeta o comportamento da moça quando ela passa a "reconhecer" coisas que supostamente nunca havia visto antes, como um apelido "Tangerina", que era como o Joel a chamava.
Ao mesmo tempo, Mary, a secretária da clínica mostra-se completamente apaixonada pelo doutor Wozniak o responsável pela Lacuna.
A palavra Lacuna vem do latim e significa "perda, vazio", o que totalmente caracteriza a mensagem que o filme pretende deixar: tentar apagar alguém da sua mente é como tentar criar um vazio dentro de si de tudo aquilo que você aprendeu com aquela experiência. E de uma maneira ou de outra, é uma missão que não compensa.
Mary se apaixona mais uma vez pelo doutor Wozniak (a quem já havia apagado de sua mente antes), Clementine entra em colapso e Joel arrepende-se no meio do processo e tenta parar o ciclo de deleções, em vão. No fim, movido por compulsão interna, ele acaba indo parar, sem saber por quê, em Montauk, pois esta foi a última coisa que a Clementine disse para ele. "Encontre-me em Montauk". E mesmo sem lembrar ou saber a razão, ele vai e a encontra lá. Dois estranhos que se conhecem melhor que ninguém.
Esse roteiro incrível derruba uma a uma as teorias de "Desapega, não se apega não" que muitos blogueiros e redatores de revistas e escritores de livros de auto-ajuda tentam empurrar goela abaixo. Desapegar, esquecer, tornar obsoleto não é um caminho. Pois neste caminho de deserção, você não está abrindo mão apenas do outro, mas de si mesmo.
Para começar com intensidade e densidade, abandonando enfim as coisas rasas.
Escrevi isso para o Adoro Cinema.
Vivemos num mundo triste. Como diria Bukowski, "um mundo solitário, de pessoas assustadas". Nesse mundo onde as coisas podem ser ditas e feitas rapidamente, onde pessoas muito distantes umas das outras podem se comunicar de maneira incrivelmente rápida, criamos o hábito de abandonar uns aos outros. E mais, algumas pessoas, especialistas em egoísmo e emocionalmente deficientes passaram a convencer os outros de que isso é uma coisa boa, a coisa certa a se fazer.
O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças mostra uma situação que, se existisse hoje, bateria o recorde das cirurgias plásticas: a possibilidade de pagar um valor e ter uma pessoa completamente arrancada de sua mente. Mas arrancada até que ponto?
Logo na introdução do filme, Joel e Clem se encontram na estação de trem, Até ali, você pensa que eles nunca se viram. E é algo completamente eestranho, visto que eles se envolvem de uma maneira absurdamente intimista logo num primeiro contato. Ela se sente mais segura com ele do que tem estado durante muito tempo. E logo depois nos é mostrado que eles já se conheciam.
Sim, o filme se passa quase por completo na mente do Joel, mas também temos relances do que acontece com Clementine, a primeira a passar pelo processo de apagar a memória. E vemos como o processo, que é descrito como um "dano cerebral", afeta o comportamento da moça quando ela passa a "reconhecer" coisas que supostamente nunca havia visto antes, como um apelido "Tangerina", que era como o Joel a chamava.
Ao mesmo tempo, Mary, a secretária da clínica mostra-se completamente apaixonada pelo doutor Wozniak o responsável pela Lacuna.
A palavra Lacuna vem do latim e significa "perda, vazio", o que totalmente caracteriza a mensagem que o filme pretende deixar: tentar apagar alguém da sua mente é como tentar criar um vazio dentro de si de tudo aquilo que você aprendeu com aquela experiência. E de uma maneira ou de outra, é uma missão que não compensa.
Mary se apaixona mais uma vez pelo doutor Wozniak (a quem já havia apagado de sua mente antes), Clementine entra em colapso e Joel arrepende-se no meio do processo e tenta parar o ciclo de deleções, em vão. No fim, movido por compulsão interna, ele acaba indo parar, sem saber por quê, em Montauk, pois esta foi a última coisa que a Clementine disse para ele. "Encontre-me em Montauk". E mesmo sem lembrar ou saber a razão, ele vai e a encontra lá. Dois estranhos que se conhecem melhor que ninguém.
Esse roteiro incrível derruba uma a uma as teorias de "Desapega, não se apega não" que muitos blogueiros e redatores de revistas e escritores de livros de auto-ajuda tentam empurrar goela abaixo. Desapegar, esquecer, tornar obsoleto não é um caminho. Pois neste caminho de deserção, você não está abrindo mão apenas do outro, mas de si mesmo.
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