quinta-feira, 24 de julho de 2014

Um início promissor...

Para começar bem, falando de algo eu gosto, e principalmente para honrar a memória de todos os blogs que escrevi e abandonei...
Para começar com intensidade e densidade, abandonando enfim as coisas rasas.

Escrevi isso para o Adoro Cinema.


Vivemos num mundo triste. Como diria Bukowski, "um mundo solitário, de pessoas assustadas". Nesse mundo onde as coisas podem ser ditas e feitas rapidamente, onde pessoas muito distantes umas das outras podem se comunicar de maneira incrivelmente rápida, criamos o hábito de abandonar uns aos outros. E mais, algumas pessoas, especialistas em egoísmo e emocionalmente deficientes passaram a convencer os outros de que isso é uma coisa boa, a coisa certa a se fazer.
Quando eu era pequena minha mãe costumava dizer que não compraríamos algo novo se o antigo podia ser consertado. Isso parece muito coisa de "pobre", mas hoje eu entendo o que ela queria dizer: se uma coisa ainda pode funcionar, por que comprar uma nova e correr o risco de que não dure nem um terço do que a antiga? Por que, se o velho ainda funciona e muito bem?! Por que eu posso? Para mostrar que eu tenho esse poder?
O Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças mostra uma situação que, se existisse hoje, bateria o recorde das cirurgias plásticas: a possibilidade de pagar um valor e ter uma pessoa completamente arrancada de sua mente. Mas arrancada até que ponto?
Logo na introdução do filme, Joel e Clem se encontram na estação de trem, Até ali, você pensa que eles nunca se viram. E é algo completamente eestranho, visto que eles se envolvem de uma maneira absurdamente intimista logo num primeiro contato. Ela se sente mais segura com ele do que tem estado durante muito tempo. E logo depois nos é mostrado que eles já se conheciam.


Sim, o filme se passa quase por completo na mente do Joel, mas também temos relances do que acontece com Clementine, a primeira a passar pelo processo de apagar a memória. E vemos como o processo, que é descrito como um "dano cerebral", afeta o comportamento da moça quando ela passa a "reconhecer" coisas que supostamente nunca havia visto antes, como um apelido "Tangerina", que era como o Joel a chamava.
Ao mesmo tempo, Mary, a secretária da clínica mostra-se completamente apaixonada pelo doutor Wozniak o responsável pela Lacuna.
A palavra Lacuna vem do latim e significa "perda, vazio", o que totalmente caracteriza a mensagem que o filme pretende deixar: tentar apagar alguém da sua mente é como tentar criar um vazio dentro de si de tudo aquilo que você aprendeu com aquela experiência. E de uma maneira ou de outra, é uma missão que não compensa.


Mary se apaixona mais uma vez pelo doutor Wozniak (a quem já havia apagado de sua mente antes), Clementine entra em colapso e Joel arrepende-se no meio do processo e tenta parar o ciclo de deleções, em vão. No fim, movido por compulsão interna, ele acaba indo parar, sem saber por quê, em Montauk, pois esta foi a última coisa que a Clementine disse para ele. "Encontre-me em Montauk". E mesmo sem lembrar ou saber a razão, ele vai e a encontra lá. Dois estranhos que se conhecem melhor que ninguém.
Esse roteiro incrível derruba uma a uma as teorias de "Desapega, não se apega não" que muitos blogueiros e redatores de revistas e escritores de livros de auto-ajuda tentam empurrar goela abaixo. Desapegar, esquecer, tornar obsoleto não é um caminho. Pois neste caminho de deserção, você não está abrindo mão apenas do outro, mas de si mesmo.

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