domingo, 27 de julho de 2014

NON SENSE. EP1

Digitou no celular:
"Você partiu meu coração".
Depois ponderou alguns segundos se deveria ou não enviar. Por um lado é bom deixar o outro saber que pisou em cima dos seus sonhos, que os destruiu. Por outro é tornar-se extremamente vulnerável à retaliação. Seria muito fácil que ele não respondesse ou fingisse não se importar. Talvez sequer se importasse mesmo. Cretinos existem em qualquer lugar e João Victor definitivamente era um.
Digitou outra mensagem:
"Me encontre na boate". Dessa vez o envio foi certo.

A Imperium havia inaugurado havia apenas um mês e já era o ponto de encontro de todos os amigos. Cacau e Marcelo disseram que a encontrariam lá. Diferentemente da sua personalidade, Laura se arrumou como nunca antes havia feito, vestiu aquele vestido curtíssimo que guardava para casamentos - ou velórios, sabe-se lá - maquiou-se, deixou as botas Timberlands de lado e calçou um salto que já criava mofo dentro do armário. Soltou os cabelos. Olhou-se no espelho. Estava fabulosa - ou assim pensava. A não ser pelas sobrancelhas... recusava-se a passar por aquela agonia desnecessária.
"Hoje eu vou fazer você se arrepender de ter me chutado, desgraçado!".

Nem sequer sabia se ele iria e pouco importava. Não significava que seu coração obviamente destroçado iria se curar, mas ela iria simplesmente encher a cara sem gastar sequer um centavo e chegar em casa carregada debaixo dos braços dos amigos e só ia acordar no outro dia. Não ia doer, nem um pouco. E mesmo que a sensação de melhora fosse absolutamente momentânea, tanto fazia. Ela daria tudo para não sentir, por pelo menos algumas horas.

Na fachada externa da boate foram projetadas luzes azuis em um letreiro de letras garrafais onde se lia Imperium, com uma coroa amarela sobre o primeiro I. A fila para entrar estava gigantesca, mas ela chegou perto da porta para ver quem era o segurança. Se fosse o Bento passaria fácil. Se fosse outro... Bem, encontraria os amigos na fila também, e aí já seria meio caminho andado.
Por sorte era Bento. Um cara enorme, com um bíceps maior que a cabeça dela e, tanto quanto grande, gay. Talvez por isso fossem amigos.

"Meu chegado!"
"Laurinha!! Desentocou?"
"Vim conferir a boate hoje. Você sabe quem toca?"
"Flávia, Tatau e um MC que eu esqueci o nome, mas sei que não é daqui".
"Você viu o Marcelo e a Cacau?
"Estão lá dentro" - e abriu passagem para ela. Adorava aquele tipo de corrupção. Furar uma fila quilométrica e entrar na boate sem pagar era demais. Não que ela fosse importante para isso, mas ela simplesmente tinha os amigos certos.

A boate já estava cheia. Muita gente, fumaça de gelo seco e aquele flash - odiava aquela merda piscando. Avistou os amigos no bar bebericando Martinis. Gostavam de pedir por que viam em filmes e adoravam passar por gente de comédia romântica. Começou a caminhar até eles, mas inexplicavelmente, por alguma força misteriosa da física que Einstein ou Newton não conseguiram explicar, seus olhos cegados por aquele flash horroroso desviaram-se 30° a bombordo e ela viu o que menos queria ver: João Victor. E ele não estava sozinho. Estava abraçado com uma garota que obviamente era mais bonita que ela, com um sorriso mais bonito que o dela, com um corpo mais bonito que o dela.
Não soube como pode enxergar tanta qualidade estando quase cega pela fumaça, mas ela conseguiu.

Tropeçou nos próprios pés e cambaleou de maneira ridícula até onde estavam os amigos.

Cacau imediatamente chamou o barman e pediu outro Martini. Laura fez que não.
"Hoje eu quero é vodka!"
"Mas amiga, vodka te dá amnésia..."
"Exatamente!"

TO BE CONTINUED

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